Bolsa Família levanta Brasil ao “muito alto” do IDH, mas incompreensão persiste
Programa de distribuição de renda é apontado como motor do acesso à educação, mas comentários de Luciano Huck ilustram desafios sociais
Depois de duas décadas de sucesso, o programa Bolsa Família continua a ser um alvo de críticas e mal-entendidos na sociedade brasileira. Apesar de sua contribuição para o avanço do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, que atingiu pela primeira vez a categoria “muito alto” em 2024, com valor de 0,805, a percepção pública ainda enfrenta barreiras. Os comentários mais recentes do apresentador Luciano Huck, durante um evento de alta relevância, destacaram essa lacuna entre a eficácia do programa e a compreensão da sua lógica.
O Radar IDHM, divulgado pelo PNUD, IBGE e Fundação João Pinheiro, revela que a educação foi a chave para essa virada. O índice educacional, com 0,798, superou o da renda (0,760) desde 2018. Isso se deve, em grande parte, às condicionalidades do Bolsa Família, que exigem a matrícula e frequência escolar dos filhos dos beneficiários. “O programa retirou uma quantidade enorme de crianças do mundo do trabalho”, afirma Betina Ferraz Barbosa, economista-chefe do PNUD no Brasil.
No entanto, a política pública enfrenta resistência. Durante um evento promovido pelo Grupo Esfera Brasil, Huck questionou: “Você não gera nenhum tipo de estímulo para que as famílias queiram sair do Bolsa Família”. Para ele, faltaria mecanismos que incentivem a saída do programa. Mas a realidade é mais complexa. Segundo a pesquisa, o Bolsa Família não foi feito para gerar renda futura, mas para proteger famílias em situação de extrema pobreza. A saída dessa realidade depende de soluções estruturais para a economia, como aponta a economista.
A análise do Radar IDHM também mostra disparidades persistentes. Enquanto os brancos (homens e mulheres) têm um IDHM de 0,851, os negros chegam a 0,774. As mulheres negras, especialmente, enfrentam uma realidade dupla: “A mulher negra no Brasil vive em um país diferente do homem branco”, destaca Claudio Parvidas, chefe do PNUD no país. Esses dados refletem a “demografia do futuro”: o censo de 2022 aponta que as pessoas autodeclaradas “pardas” superam as brancas, com 45% contra 43%. Isso transforma a economia brasileira cada vez mais dependente da população negra, que será a base da aposentadoria social.
A metodologia do IDHM combina saúde, educação e renda, mas a educação foi o diferencial. O “índice saúde” manteve-se acima de 0,800 desde 2012, exceto em 2021, durante a pandemia. Já o da renda oscila em torno de 0,740, evidenciando que a desigualdade estrutural persiste. “A elite branca vai ter que dialogar com os não-brancos”, conclui Betina Ferraz, lembrando que a mudança demográfica não é apenas um dado populacional, mas uma transformação social e econômica.
André Barrocal é repórter especial de CartaCapital em Brasília. Sua jornada se dedica a explorar questões sociais e políticas do Brasil, com foco em políticas públicas e seus impactos nas comunidades mais vulneráveis.